O que é EMDR : Liberte-se dos seus traumas

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Situações dolorosas do passado nem sempre são bem processadas e, muitas vezes, essas memórias podem conviver connosco durante anos, décadas ou até uma vida inteira. O EMDR ajuda-nos a reviver essas experiências e dar-lhe um novo significado. Curioso? Descubra mais sobre este modelo terapêutico.

EMDR, já ouviu falar? Vamos explicar o que é EMDR.

Não se assuste com a complexidade que as letras desta sigla ou a sua definição podem transmitir ao primeiro olhar. Nós explicamos-lhe do que se trata e garantimos que é bem mais simples do que parece.

Comecemos, então, pela parte que parece ser mais complicada. EMDR quer dizer Eye Movement Desensitization and Reprocessing, o que em bom português significa Dessensibilização e Reprocessamento através do Movimento Ocular. A designação pode ser estranha mas o EMDR é um método terapêutico que permite, de modo rápido e eficaz, reviver e dar novo significado a experiências traumáticas e a crenças limitadoras. Tudo isto através do processamento do movimento ocular. Intrigado?

Quando vivemos uma situação que nos provoca níveis elevados de ansiedade ou sofrimento – como um acidente de viação, a perda de um ente querido ou o medo de ser gozado em público -, o cérebro não é capaz de processá-la corretamente e a informação fica retida dentro de nós como um acontecimento não digerido. Na maioria das vezes, o nosso cérebro tem capacidade de processar a informação e resolver as situações conflituantes ou traumáticas. Contudo, o problema surge quando estas memórias “mal arrumadas” persistem, causando uma espécie de bloqueio e sofrimento no presente.

Esse momento perturbador fica, assim, “congelado no tempo” e quando existe algum fator ou estímulo no presente que nos faça recuperar essas memórias, iremos reexperiênciar as imagens, os sons, os cheiros, os pensamentos, as emoções e sensações físicas da mesma forma e com a mesma intensidade como quando o vivemos pela primeira vez.

Com o EMDR é possível estimular o cérebro de forma a levá-lo a reprocessar o acontecimento traumático e/ou perturbador, permitindo desbloquear o sistema nervoso e a reintegração dessa lembrança difícil e dolorosa. Como? “Através de movimentos oculares, táteis ou auditivos, esta técnica terapêutica promove a estimulação bilateral do cérebro e, consequentemente, a comunicação entre os dois hemisférios cerebrais”, esclarece Nuno Mendes Duarte, psicólogo e terapeuta de EMDR. Ao que parece esta estimulação permite a criação de novos significados, mais positivos e adaptativos, de uma determinada experiência traumática.

 

Memórias tornam-se menos dolorosas

Esta nova abordagem para o tratamento de traumas emocionais foi desenvolvida pela psicóloga americana Francine Shapiro, na década de 80. A psicóloga descobriu que ao associar movimentos oculares – para a esquerda e direita, e de cima para baixo – a imagens ou pensamentos perturbadores, a sua intensidade reduzia, chegando mesmo a desaparecer por completo.

Apesar de ainda não se conhecer os mecanismos que explicam o êxito do EMDR, acredita-se que o segredo do sucesso reside num processo semelhante ao que se passa quando estamos a dormir.

Uma das formas naturais de reprocessamento de memórias perturbadoras ocorre durante o sono REM (Rapid Eye Movement). Ana Cristina Santos, psicóloga e presidente da Associação EMDR-Portugal, explica-nos que nessa fase do sono “os movimentos oculares rápidos (REM) facilitam o processamento do material inconsciente, permitindo-nos processar o que nos acontece durante o dia”.

Ora, o que se observa com a técnica dos movimentos oculares usados em EMDR, é que ela parece desbloquear o sistema nervoso e permitir ao cérebro o processamento da experiência emocional stressante. Desta forma, o EMDR ajuda-nos a encarar e viver os traumas de um modo diferente (reprocessamento) e sem os efeitos perturbadores da situação.

Inicialmente utilizado para tratar traumas emocionais e as sequelas provocadas por Pós-Stress Traumático – como por exemplo, experiências de guerra, catástrofes naturais, acidentes e violações -, as possibilidades de aplicação do EMDR têm-se ampliado. Nos dias de hoje, este modelo é utilizado com eficácia no tratamento de quadros de ansiedade, depressão, fobias, perturbação de pânico, doenças psicossomáticas, bem como na otimização do desempenho e na instalação de recursos positivos.

Mas, e se não tivermos um trauma identificado nem detetarmos uma situação perturbadora na nossa vida? Nesse caso como é que o EMDR nos pode ajudar? Na verdade, a resposta é bastante simples. Mas antes, e de acordo com Nuno Mendes Duarte, é importante esclarecer que situações traumáticas não são apenas acontecimentos de grande dimensão, aos quais associamos uma carga traumática elevada; podem ser situações aparentemente menos impactantes, como ser gozado na apresentação de um trabalho escolar ou numa reunião de trabalho.

“Não é a gravidade “objetiva” da situação em causa que vai determinar que uma pessoa fique traumatizada mas sim o elevado grau de stress com que vivenciou essa mesma situação”, sublinha o psicólogo. Isto significa que um determinado acontecimento pode ser muito traumatizante para uma pessoa e não causar nenhum impacto noutra, e vice-versa. Tudo depende dos fatores de vulnerabilidade presentes no momento.

Por isso, se desconhece a existência de um trauma mas sente que existe algo que o bloqueia e impede de avançar como gostaria, saiba que o EMDR pode ser a solução para si. Uma das grandes vantagens deste método reside, segundo os terapeutas de EMDR, no facto de ajudar-nos a identificar situações cujo impacto, à partida, desconhecemos.

 

As regras do “jogo”

O EMDR é um trabalho complexo que exige o conhecimento da história clínica do paciente, o diagnóstico apropriado, o desenvolvimento de uma relação empática entre terapeuta e paciente e a preparação do próprio para a terapia em si. Como Ana Cristina Santos nos revela, “baseia-se num conjunto de protocolos padronizados que incorporam elementos de vários modelos psicoterapêuticos (psicanálise, cognitivo-comportamental, experiencial, entre outros)”.

Antes de percebermos como decorre na prática uma sessão de EMDR, é preciso conhecer algumas das suas regras. Quando alguém pretende iniciar a terapia de EMDR é necessário que se faça uma análise prévia da situação. “Em primeiro lugar, é preciso assegurar ao cliente que é ele que controla todo o processo e que pode pará-lo a qualquer momento, mesmo no decorrer da sessão”, informa Ana Cristina Santos.

Depois, é necessário analisar os recursos que o cliente tem. “No EMDR há uma fase em que a sintomatologia é exteriorizada e esse momento pode ser muito forte para o cliente ao ponto de não conseguir lidar com o sofrimento. Por esse motivo, quando alguém vem para iniciar o modelo, eu tenho de assegurar que essa pessoa tem recursos positivos, ou seja, formas de lidar com a situação, caso isso aconteça, e perceber como é que eu a posso ajudar”, revela a presidente da EMDR-Portugal.

Por fim, o terapeuta tem de perceber que tipo de crenças negativas é que a pessoa tem a respeito de si mesma quando pensa na situação perturbadora, quais são os sentimentos associados, como é que o corpo reage, bem como as novas competências que gostaria de adquirir. “Portanto, com o EMDR nós trabalhamos o passado, o presente e as competências para o futuro”, sintetiza Ana Cristina Santos.

 

Como tudo acontece…

Na primeira sessão de EMDR é fundamental encontrar recursos internos e desenvolver a noção a que os terapeutas chamam de lugar seguro. Uma situação ou local que transmita calma, segurança e serenidade à pessoa e a que este se possa “agarrar” quando necessário. Este passo é extremamente importante porque “antes de começarmos a trabalhar elementos emocionais ou traumáticos, devemos ter recursos para nos podermos acalmar, no caso de ficarmos muito agitados”, realça Nuno Mendes Duarte.

Esta fase inicial permite, assim, encontrar um nível de descontração satisfatório que nos permite avançar para as fases seguintes, incluindo a do processamento propriamente dito. O terapeuta pede, então, ao cliente que se concentre, por momentos, na situação traumática e depois solicita que siga com o olhar os seus dedos que se movimentam em toda a extensão do campo ocular.

Ao seguir o movimento, o paciente mexe os olhos da direita para a esquerda e da esquerda para a direita. Este gesto ritmado é realizado durante alguns segundos e corresponde à fase de estimulação cerebral. A pessoa é, então, convidada a relatar a cadeia de associações que espontaneamente emergiram na sua mente, descrevendo pensamentos, emoções e sensações físicas.

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