Co-dependência Mãe-Bebé

Co-dependência Mãe-Bebé
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O estabelecimento de uma relação co-dependente é essencialmente uma busca constante por aprovação, sensação de segurança e sentimentos de valorização e de identidade.

Algumas pessoas dedicam quase integralmente a sua vida em função de outra, não percebendo que a dedicação exagerada poderá ser uma fuga
de si mesma e que a disponibilidade ilimitada não é um movimento saudável de troca.

Esta dedicação e disponibilidade excessivas, muitas vezes, estão presentes na díade Mãe-Bebé, constituindo-se uma co-dependência do vínculo entre os dois e, consequentemente, não sendo possível estabelecer-se um processo saudável e necessário de separação/individuação.

A Co-Dependência é um conceito que descreve as pessoas que sentem e acreditam que necessitam de proteger e de cuidar de outra para conseguirem viver plenamente a sua vida.

De facto, o estabelecimento de uma relação co-dependente é essencialmente uma busca constante por aprovação, sensação de segurança e sentimentos de valorização e de identidade. Neste sentido, as crenças principais das pessoas com personalidade dependente prendem-se com a necessidade de suporte
e de encorajamento e, simultaneamente, com a presença da outra pessoa para serem felizes.

Concretamente na díade Mãe-Bebé, a primeira poderá sacrificar a sua vida no âmbito social, profissional e, inclusivamente, amoroso em prol de cuidar a 100% do seu bebé, tornando-se o Pai/Marido uma figura ausente e secundária.

 

Causas motivadoras da Relação Co-Dependente

A mãe que estabelece uma relação de co-dependência com o seu bebé, possui uma personalidade com forte carácter dependente e caracteriza-se por uma necessidade de afecto, um enorme medo de abandono, uma baixa auto-estima, uma grande falta de confiança, uma desmedida angústia de separação, sentindo-
se valorizada apenas quando cuida e é necessária. O desenvolvimento
desta personalidade poderá dever-se a uma tendência dos pais em punirem precocemente comportamentos independentes da criança, promovendo-lhe o receio de os voltar a demonstrar.

Poderá igualmente dever-se à perda precoce dos pais ou rejeição dos mesmos, conduzindo a uma interrupção do processo de vinculação – ou seja, da primeira relação afectiva da criança que serve de molde para todas as suas relações
futuras –, incutindo-lhe um sentimento de abandono precoce. Por outro lado, poderá ainda ser explicado pela presença de pais “super-protectores e/ou controladores”, que estabelecem uma vinculação insegura com a criança, fazendo com que em adulta sinta uma contínua necessidade de ajuda, de suporte e de atenção do outro.

 

Relação Co-Dependente…

Vinculação Insegura
Todo o ser humano é dependente do outro, porém quando falamos em co-dependência do vínculo referimo-nos a dois seres humanos que só  conseguem viver plenamente em conjunto, quase como em simbiose. Se a mãe não conseguiu estruturar um Eu/Ego suficientemente seguro e individual e desenvolveu simultaneamente uma personalidade com fortes traços dependentes, dificilmente conseguirá ajudar o bebé a desenvolver-se como um
ser confiante e independente.

Winnicott desenvolveu o conceito de “mãe suficientemente boa” para caracterizar
as mães com capacidade de holding – tocar, pegar e prover às necessidades do bebé do ponto de vista físico e psicológico – sendo esperado que numa primeira
fase o bebé se sinta fundido com a sua mãe. Posteriormente, o bebé deverá ir
experimentando gradualmente alguma ansiedade de separação, obtendo simultaneamente da mãe a segurança necessária para a resolver.

Finalmente, o bebé terá interiorizado a figura da mãe como contentora e securizante, demonstrando na sua ausência a capacidade para estar só. Esta maturidade e segurança estariam a par do estabelecimento de uma vinculação
saudável e segura, na medida em que a criança manifestaria a capacidade e a vontade para explorar sozinha o seu meio envolvente.

Pelo contrário numa relação de co-dependência, estabelecer-se-ia uma vinculação insegura com a criança, uma vez que não lhe eram transmitidos os sentimentos de confiança e de segurança necessários para se afastar dos seus pais. Complementarmente, por serem figuras demasiado protectoras e/ou intrusivas, incutiriam na criança sentimentos de dependência, de incapacidade e de impotência.

Em suma, um carácter muito dependente da mãe, leva-a a não estabelecer um limite estável e saudável com o seu bebé, fomentando a sua dependência. Assim, a mãe deverá sorrir e brincar constantemente com o bebé desde o seu nascimento, mas dando-lhe uma atenção “quanto baste” sem ser ao mesmo tempo abandónica nem intrusiva.

 

Efeitos para a Vida Futura do Bebé
O processo de Separação/Individuação é uma etapa essencial para o desenvolvimento humano.
Nesta existem duas tarefas principais: a formação de um conceito estável do Eu e de um conceito estável do Outro. A reacção da mãe ao longo desta fase, nomeadamente nas reacções espontâneas da criança de exploração do meio, influencia decisivamente o resultado final. A “mãe suficientemente boa” aceita o risco da separação, favorece a autonomia (espaço para o bebé poder falhar e frustrar-se) e permite a afirmação do Eu do seu bebé.

Pelo contrário, uma mãe que estabeleça uma relação de co-dependência com o bebé, não consegue estimular a sua independência, trazendo custos futuros que poderão ser altos, pois o bebé terá necessidade de se rebelar e de se afastar ainda mais, ou então desenvolverá um Eu/Ego frágil e inseguro. Desta forma,
não é permitido que o bebé em adulto tenha um funcionamento adequado na ausência de outra pessoa, que construa uma identidade confiante e autónoma e que, muito provavelmente, desenvolva também ele relações com grande carácter dependente.

 

Procura de Ajuda Profissional
As pessoas cuja personalidade tem um forte carácter dependente, concentram-se mais nas atitudes e necessidades do outro do que nas suas. Simultaneamente não consideram que a sua dedicação e disponibilidade são desmedidas
pois, no fundo, estão apenas a “ajudar”.

Porém, este tipo de conduta traz grande sofrimento e sentimentos de insatisfação e de solidão constantes. É, por estas razões, muito difícil agirem de outra forma e mudarem grande parte da sua personalidade. Um Acompanhamento Psicológico torna-se por isso imprescindível, no sentido de fornecer as ferramentas
necessárias para a mudança.

Assim, o Psicólogo ou Psicoterapeuta ajudaria no aumento da auto-estima, no estabelecimento de limites nos relacionamentos, no ensaio da autonomia
e na identificação, expressão e compreensão dos seus sentimentos e emoções (raiva, medo, insegurança, culpa). Seria um recurso fundamental para que se sentisse mais confiante, independente e segura.

Referências Bibliográficas:
Bowlby, J. (1981). Cuidados Maternos e SaúdeMental. São Paulo: Martins Fontes.

Rodrigues, V. A., & Gonçalves, L. (1998). Patologia da Personalidade. Teoria, Clínica e Terapêutica. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

Winnicott, D.W. (2000). Da Pediatria à Psicanálise. Rio de Janeiro: Imago.

Texto: Dra. Marta Fernandes, Psicóloga Clínica

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