Interpretar os desenhos das crianças

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Interpretar os desenhos das crianças
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Quando uma criança desenha está a comunicar, está a deixar falar o seu inconsciente.

Logo que a criança tem idade para segurar num lápis, começa a desenhar ao seu jeito. E apesar de poder parecer apenas uma brincadeira, os seus desenhos revelam aspectos da sua personalidade, situação familiar e social.

Torna-se assim importante entender, perceber e saber interpretar o que os desenhos das crianças nos querem dizer, o que revelam e dessa forma perceber o que pode estar a atormentar o inconsciente da criança.

No desenho a criança expõem-se e expõe o modo como interpreta o mundo. Na clínica infantil, explica a psicóloga Manuela Cruz, os desenhos das crianças são fundamentais para a compreensão dos problemas e temores das crianças e ajudam a resolver algumas situações problemáticas.

Para a psicologia os desenhos das crianças são uma riquíssima forma de estudar o desenvolvimento emocional e intelectual, a capacidade de percepção e de interpretação. Toda a representação da criança reflecte sobre si mesma e, como tal, os pais têm a tentação de querer analisar os desenhos dos seus filhos. O desenho permite que a criança represente o seu corpo, a sua movimentação no espaço e, sobretudo, que comunique de uma forma diferente da palavra.

No entanto, é necessário não esquecer que um desenho só por si não pode revelar tudo. Permite conhecer melhor o seu filho, mas faz parte de um método de análise muito mais vasto, usado pelos especialistas de psicologia infantil, caso contrário, corre-se o risco de tirar conclusões erradas e prematuras.

Interpretar os desenhos das crianças

 

Um modo de expressão do mundo interior.

Observe e demonstre interesse pelos desenhos dos seus filhos. Ao fazê-lo está a aumentar a sua auto-estima. Guarde algumas dessas obras de arte, com a data em que foram executadas, para mais tarde lhe mostrar. Mesmo que não compreenda o seu conteúdo, lembre-se que nenhum risco é feito ao acaso, todos têm um sentido que demonstram a forma de pensar da criança e a sua maneira de interpretar o mundo.

Existem três tipos de desenhos muito reveladores: o desenho da figura humana, o desenho da família e o desenho da casa. Enquanto o seu filho desenha, observe-o. Tome atenção ao local que o desenho ocupa na folha, às cores utilizadas, à ordem pela qual ele expõe os elementos. Repita esta experiência várias vezes e em diferentes dias.

Se ele desenhar uma feiticeira, talvez tenha visto um filme sobre esse tema. Se não perceber o que ele desenhou, não desespere e, sobretudo, nunca faça comentários depreciativos. O desenho das crianças também evolui com a idade e não se rege pelos padrões estéticos dos adultos. Uma das características dos desenhos das crianças mais pequenas é a de poderem estar de pernas para o ar, ou a subir.

Tal acontece porque as crianças ainda não aprenderam a considerar os limites da folha de papel, não têm pontos de referência nem estão preocupados com as questões da gravidade. Mais tarde, a par do seu desenvolvimento intelectual, vão aprender a usar o limite inferior da folha, como referência, para organizar o desenho e a orientá-lo da esquerda para a direita como aprendem com a escrita.

Lembre-se que o desenho também serve para dar asas à imaginação. Pergunte-lhe quem é que ele quis representar e conversem sobre o desenho. Com certeza o seu filho vai ensinar-lhe muitas coisas e estes momentos de interacção e diálogo são muito importantes para o seu filho. O processo de aprendizagem das crianças envolve interacção.

Quando tenta desenhar o que observa, imagina a opinião dos que o amam e apreciam o seu trabalho; corresponder a essas expectativas ajuda à aprendizagem e aumenta a auto-estima e a confiança em si próprio. Se gostar e lhe apetecer até podem desenhar em conjunto.

 

A linguagem das cores

A criança utiliza as cores para imitar a natureza, mas também segue o seu inconsciente, o que é muito revelador.
Contudo, as relações que de seguida apresentamos não podem ser entendidas de modo estrito, nem alarmista.
Constituem apenas indicadores, de referência possível, em contexto de análise mais alargado e especializado.

Vermelho. A sua utilização excessiva antes dos seis anos é normal. A partir daí pode indicar tendência para a agressividade e falta de controle emocional.

Azul. Utilizado por crianças com menos de cinco anos revela um comportamento mais controlado do que as que utilizam o vermelho. Substitui o castanho quando a criança renuncia a permanecer bebé.

Castanho. Se for dominante, pode ser sinal de má adaptação familiar e social.

Verde. Traduz principalmente as relações sociais. No caso de ser dominante, existe um risco de inibição.

Preto. Utilizado em qualquer idade, traduz angústia. Durante a puberdade, revela o pudor dos sentimentos.

Violeta. Reflecte inquietude e ansiedade. Raramente utilizado por crianças.

Amarelo. Ruitas vezes associado ao vermelho, pode exprimir uma grande dependência relativamente ao adulto.

 

Notas sobre o desenho infantil

O jogo e o sonho são modos de expressão do mundo interior de crianças, e instrumentos para a sua compreensão, usados por psicoterapeutas da infância.
Nas consultas e sessões de tratamento cria-se um clima de neutralidade que facilita a libertação dos afectos, dos conflitos, das ansiedades menos conscientes.

Do desenho tiram-se significantes que nos permitem entender o lado mais autêntico e, por vezes, escondido de cada criança. Seria diferente o seu significado se o desenho fosse executado sob sugestão directa do observador, como acontece nos meios escolares onde a espontaneidade é bloqueada pelas exigências do meio.
De imediato podemos dizer, face a um desenho espontâneo, que se tratou de um conteúdo simbólico rico ou pobre. Rico se exprime uma cena, uma acção que deve ser ligada à narrativa do autor do desenho, expressando a riqueza da sua vida mental.

Conteúdos fragmentados, incompletos, de narrativa confusa, seriam sinais de pobreza ou desorganização de vida interior. O desenho é de início, aos dois / três anos, não figurativo mas de imediato tem uma forma e pode ter sempre um conteúdo rico no plano simbólico. Pode ler-se a adequação à idade e o nível do conflito que é expresso – conflito de perda, segurança, solidão, destruição, perseguição ou exprimindo fantasias adequadas à idade e à realidade cultural em que está inserida cada criança, de prazer, de pena, de estar consigo própria e com os outros.
Quando à cor: distinguimos o vermelho como ligação a conteúdos sexuais, de excitação em cenas como o jogo, a lava do vulcão, o vestido de menino que se quer exibir no fazer notar.
O branco simbólico do vazio, do nada.
O negro ligado a afectos de culpa, de raiva, de desejo destrutivo mortífero, segundo o conteúdo simbólico em que se insere.

O azul e o verde, mais ligados à área dos objectos de tranquilidade e de prazer.
Na linguagem psicodinâmica os objectos distinguem-se em afectos agressivos ou libidinais, de ódio ou de amor, ou de ambos, interligados.

Podem ser voltados para o próprio em amor por si “mesmo” – que no desenho tomam a forma de fantasias de grandiosidade como ser o super-homem, o herói de cena, ou a princesa, a rainha, etc, ou afectos voltados para o exterior em ataques a personagens, a maus, a ladrões, etc.
Exprimem-se afectos de solidão na casa vazia e isolada, na imagem solta no espaço sem ninguém no horizonte como referência de segurança e protecção».

 

Como interpretar os desenhos deles?

Para a ajudar a ver com maior clareza, siga a interpretação que apresentamos de vários desenhos de crianças, com algumas características que vai encontrar nos seus filhos. Esteja atenta aos seus desenhos que podem dar alguma pista sobre o seu estado de espírito. Se, após algumas observações, sentir um certo mal-estar no que a criança desenha (utilização sistemática de cores escuras, certa agressividade no traço, persistência de temas ou de formas) e se notar alguma alteração de comportamento, não hesite em consultar um especialista.

 

Como interpretar os desenhos das crianças?

Para a ajudar a ver com maior clareza, siga a interpretação que apresentamos de vários desenhos de crianças, com algumas características que vai encontrar nos seus filhos. Esteja atenta aos seus desenhos que podem dar alguma pista sobre o seu estado de espírito. Se, após algumas observações, sentir um certo mal-estar no que a criança desenha (utilização sistemática de cores escuras, certa agressividade no traço, persistência de temas ou de formas) e se notar alguma alteração de comportamento, não hesite em consultar um especialista.

Uma família ideal (Rita, 6 anos)

Rita desenhou a família com muita atenção e aplicação. É sempre muito interessante observar a criança enquanto ela desenha. Muitas vezes está a contar uma história e a ordem de entrada em cena das personagens é muito importante sobretudo no desenho da família. As primeiras pessoas representadas são as mais importantes. No desenho da Rita, o tamanho das personagens é respeitado e muito harmonioso. As crianças são representadas com um tamanho diferente, como acontece na realidade. Os corpos estão bem articulados, os olhos são grandes e abertos ao mundo. As pessoas são dinâmicas uma vez estão em movimento dirigem-se para a direita e olham em frente. Este desenho testemunha um sentido espacial bem integrado.

Este homem, sou eu (António, 14 anos)

O desenho da figura humana é uma projecção do seu autor. Aqui, o desenho do António revela dificuldades afectivas e sociais. A personagem é baixa e gorda, os traços são carregados, rabiscados. O desenho está cheio de pormenores, o que muitas vezes é característico de crianças com problemas. Os pregos e a placa de sentido proibido dão conta da angústia inconsciente de António. Poderão significar que ele renuncia aos seus desejos. Se o seu filho desenhar com um traço firme um homem com proporções harmoniosas, situado no meio da folha e com os olhos abertos, um tronco grande e forte com um pescoço bem presente, é bom sinal. Tem maturidade e um grande domínio de si próprio.

A casa do divórcio (Sofia, 7 anos)

Quando pedimos á Sofia para desenhar a sua casa, ela representa espontaneamente duas, a do pai e a da mãe. Uma parece mais pequena e mais feminina, tem um jardim florido… É a casa da mãe. A Sofia parece ter integrado bem a separação dos pais. Mas, se o desenho representasse, por exemplo, uma só casa com duas portas, revelaria um conflito entre os pais ou uma separação mal integrada.

O rio que fala… (Maria , 10 anos)

Maria representou-se com toda a sua família à beira de um rio. A presença da água é muito importante e traduz frequentemente a enurese (urina durante o sono). Apenas a roupa dela e do seu irmão são azuis. Estas duas crianças são as únicas da família que fazem chi-chi na cama. Num desenho, as cores têm a sua linguagem própria. O mundo da criança é colorido. A sua ausência traduz um vazio afectivo, traços depressivos ou uma tendência anti-social. A justaposição de cores diferentes deve ser harmoniosa, se pelo contrário for muito viva e chocante, pode revelar problemas afectivos.

Inteligência e criatividade (José, 11 anos)

José revela uma grande criatividade. Altera todos os elementos do seu desenho: o avião transforma-se numa baleia, o pára-quedas numa cabeça de raposa, o foguetão numa centopeia… os traços são precisos, duma intensidade controlada, e revela uma boa associação preceptiva. Se os traços forem finos, pouco marcados, hesitantes, revelam uma criança com pouca confiança em si própria. Se, pelo contrário, forem muito marcados, ao ponto de rasgarem o papel, a criança demonstra agressividade.

O nascimento de um irmão mais novo (Ana, 10 anos)

Quando pedimos à Ana para desenhar a sua família, ela representa o nascimento do irmão mais novo através de um bebé nu deitado no chão, e por cima dele escreve “dentro de pouco tempo”. O futuro bebé é minúsculo. A Ana tenta resolver o problema do eventual conflito de rivalidade fraterna. Os braços das figuras estão dirigidos para baixa como acontece na maioria dos desenhos das crianças. Muitas vezes as crianças não desenham o irmão mais pequeno o que dá conta da dificuldade de integrar este novo elemento na família.

 

Dois casos na pedopsiquiatria:

Transcrevemos, de seguida, dois casos marcantes para a pedopsquiatra Teresa Ferreira, especialista do Hospital Dona Estefânia com grande experiência no campo das crianças traumatizadas. A terapeuta, também com formação na área da psicanálise, descreveu-nos dois casos que a marcaram no seu percurso profissional

• Um gémeo mal situado na família
André é um gémeo, fruto de uma família bastante problemática. Por um lado, sofre o trauma da relação com uma mãe extremamente dominadora, muito presente, e que ele chega mesmo a desenhar como uma criatura feroz, sempre presente sobre si. No desenho, representa-a como uma espécie de ave, com as garras postas no ovo que o contém a si próprio e ao irmão.
Os crocodilos simbolizam-no a si e ao irmão, numa atitude de agressividade e grande competição. No canto oposto da folha, a figura do pai aparece representada como um elemento sem qualquer tipo de força, vazio e desenhado a azul. A identificação do símbolo fálico (uma espécie de tromba) é clara e evidente. Em todo o desenho aparecem animais com garras e dentes, numa atitude também claramente guerreira.

• A solidão representada
Para Teresa Ferreira, este desenho diz tudo, por si só. É como Carlos, uma criança de oito anos, se situa no mundo: sem nada à volta. As cores ténues, a ausência de conteúdo, a sua auto-representação a azul, evidenciam o grande vazio que sente sobre si próprio e a toda a sua volta. É uma criança que sofre, nitidamente, os problemas de uma solidão avassaladora, e que só consegue exprimir desta forma. O sol aparece pequeno e distante, um pouco à semelhança do que sucede com a luz e outros elementos bons da sua vida.

 

Conclusões:

• A criança é naturalmente criativa e mostra claramente o prazer de expressar o seu interior através do Jogo e do Desenho, particularmente até aos seis anos de idade;
• em psicoterapia infantil organiza-se, entre a criança e o terapeuta, um espaço privilegiado de relação (inspiração) libertador de vivências fantasmáticas inconscientes através da linguagem metaprimária do seu interior – jogo e desenho;
• o terapeuta, personagem novo na vida da criança, pode permitir-lhe um novo nascimento – explosão de amor, explosão estética – choque dos sentidos;
• o desenho infantil, tal como a obra de arte, integra pulsões libidinais e agressivas, o Belo e o Feio, num novo equilíbrio que no mundo do sensível se chama estético e resulta da sublimação;
• o objecto criado é também e sobretudo um modo sublime de comunicação da criança com o terapeuta, do artista com o resto da humanidade.

Fonte: Teresa Ferreira, pedopsiquiatra psicanalista

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