Tornar-se pessoa, Carl Rogers

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Carl Rogers (1902-1987), um dos fundadores da Psicologia Humanista, defendia que as nossas relações com os outros são muito mais significativas quando nos permitimos compreender o outro, quando olhamos para o outro como se fosse para nós próprios; pois só numa relação em que há aceitação e compreensão é que poderá ocorrer transformação e enriquecimento pessoal para ambas as partes.

No seu livro Tornar-se Pessoa, Rogers enfatiza que deverá haver uma coerência entre as emoções e as atitudes, ou seja, quando estás triste chora, fala, mostra o que sentes. Verás que te sentirás melhor quando as tuas atitudes forem coerentes com os teus sentimentos!

No entanto, essa coerência implica um profundo auto-conhecimento e uma aceitação incondicional daquilo que somos. Isso é o que para Rogers significa tornar-se pessoa.

Este livro está sobretudo direccionado para psicólogos ou outras profissões que impliquem relações de ajuda, como é o caso de, por exemplo, professores ou assistentes sociais.

No entanto, Rogers partilha alguns “aspetos fundamentais do que aprendeu” ao longo da sua vida pessoal e da sua carreira nas suas relações com os outros.

Estas aprendizagens decorrem sobretudo da sua prática em psicoterapia, mas creio que também poderão ser aplicadas às nossas relações em geral (se for do nosso desejo torná-las mais verdadeiras e significativas!).

Algo que me despertou atenção no livro e que gostaria de partilhar convosco são alguns aspectos que, para Carl Rogers, tornam as relações mais significativas:

“Nas minhas relações com as pessoas descobri que não é saudável, nem ajuda, a longo prazo agir como se eu não fosse quem sou”

Quantas vezes estamos desiludidos ou tristes com os outros e tentamos a todo o custo mostrar exatamente o contrário, mesmo que fiquemos uma semana a “remoer” no assunto? Porque é que simplesmente não somos francos e dizemos tudo o que sentimos? Ou por outro lado, porque é que há tanta dificuldade em dizer “eu amo-te” aos nossos pais, avós, namorados e amigos?

Será que é possível estabelecer uma relação verdadeira com alguém se não houver coragem de dizer o que sentimos por medo da sua reação ou do que ele pode pensar?

Para Rogers é inútil tentarmos estabelecer relações construtivas se mantivermos uma atitude de fachada e não mostrarmos o que realmente sentimos.

“Sou mais eficaz quando me posso ouvir a mim mesmo aceitando-me, e quando posso ser eu mesmo”

Ouvir-me a mim própria significa que consigo identificar aquilo que estou a sentir num dado momento, ou seja, apercebo-me e admito quando sinto hostilidade ao estar na presença de determinada pessoa, ou quando estou triste e aceito esse facto, ou quando aceito a sensação de que a outra pessoa me rejeita.

Além do mais, é importante aceitarmos que não somos perfeitos mas que também não há qualquer tipo de problema nisso.

Só assim é que conseguiremos ser nós próprios, quando aceitamos as nossas qualidades e defeitos. E quando somos nós próprios, as nossas relações tornam-se verdadeiras.

Quando nos aceitamos, abrimos as portas para mudar o que não gostamos em nós. Ao nos aceitarmos baixamos as defesas e desapegamo-nos de tudo o que já não nos faz sentido. É um processo automático.

“Não nos podemos afastar do que somos enquanto não aceitarmos profundamente o que somos”

Quando aceitamos que o nosso lado manipulador, mesquinho, maldoso ou hostil faz parte de nós e é tão real como o lado bondoso, compreensivo, amigo e sensível, é aí que conseguiremos ter relações significativas com os outros e que essas relações poderão evoluir para algo cada vez mais sólido.

“Atribuo um enorme valor ao facto de poder permitir-me a mim mesmo compreender a outra pessoa”

Quando ouves alguém a se expressar, qual é a tua tendência? Julgas ou tentas compreender?

Acredito que na maior parte das vezes será a primeira opção.

Normalmente, quando as pessoas exprimem uma opinião, uma atitude ou um sentimento a nossa tendência é avaliar o que ela está a dizer. Às vezes pensamos (ou dizemos) “que estupidez”, ou “isso não está certo”, ou “não consegues fazer melhor?”, em vez de, como Rogers refere, “permitirmos a nós mesmos compreender precisamente o que significa para essa pessoa o que ela está a dizer”.

Quando o outro sente que a sua relação connosco baseia-se na compreensão, ele sente que pode ser livre de ser ele próprio. As pessoas baixam a guarda, as suas falsas defesas e modificam-se. E a experiência de ambos torna-se de facto muito mais positiva.

Além de que a única forma de perdoarmos é tentarmos compreender o porquê de as pessoas terem agido da maneira que agiram.

“Enriquece-me abrir canais através dos quais os outros possam comunicar os seus sentimentos, a sua particular perceção do mundo”

Ao levantarmos as nossas barreiras e falsas defesas para que o outro sinta à vontade para expressar-se livremente, ser ele próprio e poder manifestar  opiniões contrárias às nossas sem constrangimentos, torna as nossas relações mais ricas, mais livres e mais verdadeiras.

Como pode uma relação ser positiva se o outro sente que não pode ser verdadeiro connosco com receio da nossa reação?

Quando as pessoas sentem compreensão da nossa parte, mais depressa elas vão gostar da nossa companhia e de ter uma relação sólida connosco.

“Qualquer pessoa é uma ilha; a pessoa só pode construir uma ponte para comunicar com as outras ilhas se primeiramente se dispôs a ser ela mesma e se lhe é permitido ser ela mesma”

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