Lado direito e lado esquerdo do cérebro. O que dizem de nós?

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É uma pessoa criativa, intuitiva, sensível, com uma veia artística muito forte? Ou é racional, analítico, alguém que gosta de exercícios de raciocínio lógico e matemática? Durante muitos anos presumiu-se que estes traços de personalidade estavam relacionados com o uso preferencial dos hemisférios cerebrais esquerdo ou direito, mas hoje sabe-se que esta divisão de competências não é assim tão linear. Afinal, ao que parece, o cérebro gosta de trabalhar em equipa.

Com pouco mais de um quilo, superfície acinzentada e consistência gelatinosa, o cérebro poderá não parecer um dos órgãos mais fascinantes do nosso corpo. Contudo, assim que mergulhamos nele, sentimos a mesma “sensação de falta de ar” como quando tentamos compreender a coerência do universo. E nessa altura apercebemo-nos que este é um dos órgãos mais complexos e que a sua total compreensão ainda está longe de ser alcançada.

A cada ano que passa aumenta o nosso conhecimento sobre este órgão misterioso. Porém, o seu universo é de tal modo complexo que muitas das funções do cérebro constituem ainda terras por desbravar, dando origem a inúmeros “talvez” e também a conceitos errados, frequentemente tomados como verdadeiros.

Se pudéssemos fazer uma visita guiada pelo seu interior, veríamos que o cérebro encontra-se dividido em dois hemisférios, o direito e o esquerdo, e que ambos comunicam entre si através de um espesso feixe de fibras nervosas a que se chama corpo caloso.

Apesar de se assemelharem na sua aparência – como o miolo de uma noz –, cada hemisfério cerebral tem características próprias e um modo particular de processar as informações recebidas. Para começar, o hemisfério direito controla o lado esquerdo do corpo, ao passo que o hemisfério esquerdo controla o lado direito. Confuso? Nós explicamos.

 

Os hemisférios cerebrais controlam a parte oposta do corpo, porque os feixes nervosos que transmitem mensagens entre o corpo e o cérebro cruzam-se no caminho. Assim, quando algo é sentido pela mão direita, uma mensagem é enviada para o hemisfério esquerdo do cérebro. E se der um pontapé numa bola com o pé esquerdo, o hemisfério direito controla o movimento.

O cruzamento de informação por parte dos hemisférios foi observado, por exemplo, em doentes, que após um acidente vascular cerebral (AVC) ficavam com um dos lados do corpo paralisado – justamente o lado oposto do cérebro que tinha sido lesionado.

Esta descoberta juntamente com outras diferenças encontradas levaram a que durante muito tempo se falasse em especialização dos hemisférios – uma vez que desempenham funções diferentes – e até mesmo na existência de duas mentes ou dois cérebros.

Um ou dois cérebros?

Todos já ouvimos falar de pessoas que dizem que tendem a usar, ora mais o lado direito do cérebro, ora mais o esquerdo. Mas de onde surgiu esta ideia? Segundo Joana Rodrigues Rato, neuropsicóloga e investigadora no Grupo de Neurociências Cognitivas do Centro de Investigação Interdisciplinar em Saúde (CIIS), as evidências de que os dois lados do cérebro – os hemisférios – têm funções especializadas e diferentes devem-se, em grande parte, ao trabalho desenvolvido por Roger Sperry, cientista que recebeu o prémio Nobel de Medicina e Fisiologia em 1981.

O investigador desenvolveu desde a década de 60 vários estudos sobre a lateralidade das funções, ou seja, a superioridade de um ou outro hemisfério na realização de determinadas tarefas. Sperry e os seus colegas estudaram vários pacientes cujo cérebro foi literalmente dividido numa cirurgia. O procedimento consistia em cortar o corpo caloso como último recurso para controlar a epilepsia grave.

A experiência foi um sucesso, mas após a cirurgia Roger Sperry percebeu que, embora as pessoas se tivessem mostrado aparentemente normais ao realizar as suas atividades rotineiras, algo tinha mudado. Sperry constatou que os “doentes de cérebro dividido” mostravam uma assimetria na capacidade de verbalizar respostas a questões colocadas separadamente aos dois hemisférios. Ou seja, apresentavam dois cérebros independentes aos quais podiam ser dadas tarefas diferentes. Deste modo, era possível, por exemplo, mostrar imagens a um hemisfério que o outro hemisfério não via.

Foi assim que se descobriu que os dois hemisférios cerebrais têm uma visão diferente sobre como as coisas estão ligadas, reforçando a ideia de que temos dois cérebros ou que os hemisférios funcionam de forma independente.

No entanto, esta dicotomia entre o lado esquerdo e o lado direito tem sido simplificada de modo grosseiro. Joana Rodrigues Rato afirma mesmo que “a forma como se fala desta lateralidade dos hemisférios acaba por ser uma distorção da ciência”. Prova disso são os vários estudos que têm demonstrado que, afinal, as coisas não estão tão divididas ou compartimentadas como outrora se julgara.

 

Cérebro trabalha como um todo

“O prazer que o meu cérebro direito está a sentir é maior que a capacidade do meu cérebro esquerdo de explicá-lo”. A frase é de Roger Sperry que, durante os seus estudos sobre especialização hemisférica em termos de localização de diferentes capacidades, descobriu que o hemisfério esquerdo prefere tarefas que estão relacionadas com a função e com a lógica enquanto que o hemisfério direito prefere a forma e a unidade.

Os anos 90 foram proclamados nos Estados Unidos da América como “A Década do Cérebro”, designação impulsionada pelas grandes investigações neurocientíficas, e desde essa altura são várias as pesquisas que deitam por terra o mito do lado direito vs. lado esquerdo do cérebro.

Lógico, linear, analítico e calculista são algumas das características associadas ao lado esquerdo do cérebro. De acordo com a neuropsicóloga, “o hemisfério esquerdo está especializado em atividades verbais e o seu funcionamento requer voluntariedade. É fundamentalmente analítico, processa a informação de uma maneira serial, possibilitando o reconhecimento de caras e formas complexas. Está melhor dotado para fazer juízos de análises de sequências temporais e o seu funcionamento é mais focal que difuso”.

 

O lado direito, por sua vez, é a parte que permite o raciocínio não-linear, espontâneo, criativo e intuitivo. É responsável por se ser sentimental, filosófico, religioso, pensando no hoje, no aqui e no agora. Não usa palavras, mas sim a imaginação, controlando a formação de imagens – reconhecimento de diferentes padrões visuais ou desenhos – e as relações espaciais. “O hemisfério direito é holístico e sintético, mais pré-lógico que lógico. A forma como processa a informação não é racional, mas intuitiva ou irracional, sendo capaz de perceber e memorizar estímulos que não podem ser etiquetados de forma verbal”, acrescenta Clara Conde.

Até há pouco tempo – quando se julgava que um lado do cérebro tinha predomínio sobre o outro –, alguns especialistas acreditavam que se podia exercitar o lado menos ativo. No entanto, esta ideia não é válida para os dias de hoje. Uma vez que os dois lados do cérebro são complementares e interagem continuamente enquanto desempenhamos as nossas tarefas do dia-a-dia, Joana Rodrigues Rato considera que “não faz muito sentido ‘trabalhar’ cada um dos hemisférios”.

 

Apesar disso, “considerando as exigências da sociedade moderna, os neurocientistas apelam cada vez mais para que as pessoas não se esqueçam do básico: dormir as horas necessárias, fazer exercício físico e ter uma alimentação diversificada”, sublinha a neuropsicóloga. Se o fizermos, já estamos a ajudar (e muito!) para que o nosso cérebro funcione de forma equilibrada.

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