Sonolência diurna: quando o sono invade os dias

Uma noite mal dormida é suficiente para percebermos que não estamos no nosso melhor.

Mas quando a sonolência vai tomando conta do dia-a-dia, os riscos podem ser bastante perigosos. É importante perceber o que se passa e o que se pode fazer. Para que as noites voltem a ser descansadas.

Qualquer pessoa já passou por uma noite mal dormida. As horas passam, o sono não chega, e quando é altura de nos levantarmos de manhã o corpo não descansou, os bocejos surgem e a cabeça começa a vacilar até nas tarefas mais simples.

Se a situação é recorrente, podemos falar de sonolência diurna excessiva. Mas o que significa isto?

Rita Peralta, neurologista ligada ao Laboratório de Estudos do Sono, explica-nos que “ter sono é sempre anormal”, acrescentando que “as pessoas não devem assumir como normal não conseguir ver um filme no cinema, ver televisão, ou ler um livro”. Não se pense, porém, que um simples bocejo a meio do dia significa que estamos perante um caso de sonolência diurna excessiva.

Em pormenor, a sonolência diurna excessiva é a tal sensação de sonolência que tem impacto a um nível comportamental, ou seja, “adormeço ou dormito mesmo” no decorrer de atividades diárias, e a um nível subjetivo: “sinto-me sonolento porque tenho sono e, consequentemente, poucas capacidades para desempenhar as minhas tarefas”, adianta a especialista.

É importante por isso não confundir um episódio esporádico com uma situação recorrente. Rita Peralta alerta ainda que, se se trata de “uma pessoa que tem sonolência diurna situacional porque no dia anterior foi sair à noite e no dia seguinte tem sono, a causa está identificada”.

No entanto, “qualquer pessoa que tem sonolência diurna todos os dias ou praticamente todos os dias deve ser avaliada por um especialista”. E é precisamente quando a situação se torna recorrente que devemos estar atentos para agir.

 

Porque tenho tanto sono?

A sonolência diurna excessiva pode trazer transtornos a diversos níveis. Um rendimento mais baixo na escola ou no local de trabalho, por exemplo, trazem consequências do ponto de vista social.

Mas quando o sono deixa de ser reparador podemos ter dificuldades ao nível das relações pessoais, podemos colocar-nos perante situações embaraçosas, podemos ser menos eficazes nas tarefas mais comuns, e é natural que sintamos algum cansaço, frustração e até irritabilidade, simplesmente porque o nosso corpo e o nosso cérebro não estão a ter o descanso devido.

Mas se pensarmos que esta sonolência pode chegar durante a condução, diminuindo reflexos e aumentando a propensão para um acidente, percebemos que os riscos são grandes e verdadeiramente imprevisíveis. Convém, por isso, não desvalorizar o problema e assumir que é altura de procurar ajuda especializada, para se perceber em pormenor o que se passa e o que se pode fazer.

A sonolência diurna excessiva pode também ser indício de outras perturbações do sono, como por exemplo Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS), Síndrome das Pernas Inquietas, ou hipersónia. Por vezes pode também ser confundida com narcolepsia, que se caracteriza por ataques súbitos, inevitáveis e inadequados de sono, como por exemplo a pessoa sentir um sono incontrolável e adormecer durante uma prova, uma entrevista, ou no local de trabalho.

“Quando existe uma sonolência diurna crónica, a pessoa deve ser observada por um profissional com experiência na avaliação de doenças do sono. Depois, equaciona-se na consulta qual a causa do problema, mas a mais frequente é, muitas vezes, a privação de sono”, esclarece a neurologista.

 

O prazer de dormir bem:

Ao dormir permitimos a recuperação da parte músculo-esquelética, a reparação dos órgãos, a renovação de células e a organização da memória. Mas necessidades de sono também variam de pessoa para pessoa. Mais do que isso, a própria duração ideal do sono varia ao longo das diversas fases da vida de uma pessoa. Mas de que maneira é que podemos melhorar a eficácia do nosso sono, evitando assim os riscos de sonolência diária excessiva?

O que comemos, o quanto nos exercitamos ao longo do dia, as horas que trabalhamos, o tipo de trabalho que fazemos, as preocupações que fazem parte da nossa vida, tudo isso são fatores que influenciam o quanto dormimos e a qualidade do nosso sono. Por essa razão não devemos ignorar que termos ou não privação de sono é muitas vezes reflexo dos nossos hábitos e opções diárias.

Teresa Paiva, neurologista e autora do livro Bom Sono, Boa Vida, explica-nos que “o nosso corpo é uma maravilha de equilíbrios”. E esta noção de equilibro é particularmente relevante para percebermos se a sonolência diurna é fruto das nossas escolhas quotidianas.

“Quando se fazem coisas que fogem muito a esse equilíbrio”, o sono é afetado. É por isso essencial manter uma rotina de sono saudável. Para tal convém evitar erros particularmente comuns na sociedade atual. “Em termos alimentares, por exemplo, há muitas coisas que influenciam o sono”, explica-nos Teresa Paiva.

Mas trabalhar demais, não ter horários minimamente definidos (podemos tomar como exemplo profissionais que trabalham por turnos, que muitas vezes têm de se confrontar com essa quebra na rotina de sono) também são fatores que podem contribuir, dificultando uma higiene de sono saudável.

Por tudo isto percebemos que é possível fazermos a nossa parte para corrigir padrões de sono menos corretos. De qualquer das maneiras, se a sonolência é cada vez mais comum na sua vida, criando o mais diverso tipo de problemas, perceba que é o momento de agir.

É que para além de, regra geral, ser possível contrariar o problema, no final vamos recuperar um prazer que acompanha o ser humano desde que este existe: o prazer de uma noite de sono.

Recomendamos que leia também:

Tratar a apneia do sono naturalmente, é possível?

Apneia Obstrutiva do Sono na Criança

Ressonar e parar de respirar durante o sono: as soluções da terapia da fala

O Sono das Crianças (e dos pais!)

Atualizado a:

você pode gostar também