Alergias: doença dos tempos modernos

Alergias: doença dos tempos modernos
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As alergias atingem muitas pessoas e podem tornar-se num problema grave.

Talvez seja por isso que todos as conhecemos e que viver com elas quase se torne um hábito. Resta saber até que ponto a convivência é saudável, já que pensar-se em cura é prematuro, sendo a prevenção a única aposta ganha.

Certamente já lhe aconteceu não tolerar sequer o seu próprio perfume e riscá-lo da lista das suas preferências. E, se calhar, também é daquelas pessoas que tem imensa pena de não desfrutar dos prazeres do marisco e de ter um lindo gato persa na sua casa. Na verdade, este tipo de intolerâncias persegue-nos dia a dia e até há quem classifique as alergias como «Doença do Século XXI», cada vez mais presentes.

Ao que parece, e ao contrário do que nos poderia levar a pensar, desde a Antiguidade que existem alergias, pelo menos as mais habituais e as que não se prendem com situações que são iminentemente da nossa actualidade.

A alimentação, o vestuário, as flores, os animais, a urticária e tantos outros factores externos que nos rodeiam e fazem parte do quotidiano são-nos muito familiares e, de facto, é difícil nomearmos alguém a elas completamente imune. São doenças crónicas, normalmente caracterizadas por inflamações que se podem sentir tanto ao nível da pele como dos olhos ou nariz.

Na maior parte das vezes não se pensa na sua origem, mas o que é facto é que existe um agente culpado pelo aparecimento de sintomas de doenças alérgicas. Não há muito a fazer para evitar que nos ataquem, mas já é possível determinar uma série de factores, internos e externos, causadores deste tipo de sintomatologia, para além de já se ter conhecimento que o terreno atópico (genético, hereditário) e o ambiente (poluição do ar e alimentos) estão na génese deste problema.

O factor ecológico começa a ser conotado fortemente com o aparecimento desta maleita e é complicado conseguirmos arredar-nos do que nos envolve, nomeadamente, a poluição, as condições climatéricas e a recente «síndrome dos edifícios doentes».

Já haverá outros factores que dependerão mais do nosso comportamento, designadamente o tabaco (embora se lembre que o fumador passivo pode ser alvo de uma doença alérgica sem ter contribuído em nada para a desenvolver), alguns alimentos e os químicos (medicamentos).

Estilos de vida

É usual exaltar as virtudes de uma vida pacata e serena no campo ou na montanha em oposição à que é vivida sob fortes pressões e stress nas grandes cidades. Na dicotomia campo-cidade, sem dúvida sai ganhador o primeiro, embora relativamente à problemática das alergias não seja tão pacífico optar-se pelo meio rural, já que os dados estatísticos de que dispomos confirmam os malefícios da urbe mas não afastam os do campo.

Tal como nos referiu Elisa Pedro, alergologista no Centro de Alergologia de Lisboa, «o que pode diferir são as causas porque a incidência tanto se faz sentir num espaço lado como no outro». Aliás, como completou a especialista, «no campo há variados componentes potenciais causadores de alergias como o pólen e os ácaros».

A ciência ainda não conhece totalmente os factores que permitem que uma mesma substância tenha reacções tão distintas em determinadas pessoas, mas a excessiva industrialização da sociedade e os consequentes desequilíbrios ecológicos têm sido apontados como um forte indício do desenvolvimento das alergias.

Poluição e clima

O aumento do tráfego automóvel, que influencia decerto o crescimento desta doença, é bem exemplificativo do que acabou de se referir e foi alvo de uma comparação em duas cidades alemãs (Munique e Leipzig). Na verdade, deste estudo concluiu-se que a rinite e a asma alérgicas em crianças prevalecem onde a circulação automóvel se faz sentir mais intensamente.

Mas não é tudo. As condições atmosféricas também são perniciosas e, nos países que sofrem grandes alterações térmicas, a patologia ao nível respiratório pode dar origem a graves doenças e mesmo à morte. No nosso país ainda não é tão preocupante porque beneficiamos de um clima único em que os ventos marítimos partem de áreas pouco atingidas pela poluição mas há que afastar a ideia de que nada nos atinge.

Nesta matéria todo o cuidado é pouco e o progresso, mesmo que se faça sentir lentamente, há-de cá chegar a pouco e pouco. O que é preciso é estar alerta e não deixar que arrase com a nossa saúde.

Excesso de higiene pode originar alergias!

Pode julgar-se que quanto mais se super protege uma criança ou se tomam abusivas precauções em relação ao modo de confecção dos alimentos e à forma como reagimos perante o exterior, menos estamos sujeitos a contrariedades. Contudo este entendimento não é o mais correcto e na opinião de alguns alergologistas – isto porque a doutrina se divide – a realidade é completamente oposta e o excesso de higiene pode ser nocivo e dar origem a alergias, uma vez que o organismo não reage de forma natural, desconhecendo qualquer estímulo:

«No denominado mundo civilizado é suposto haver menos infecções e parasitas, havendo um desvio da resposta do organismo que, em vez de combater essas infecções, se torna mais vulnerável», comentou a médica. Esta foi uma das questões que esteve em cima da mesa dos congressistas de mais de 55 países de todo o mundo, que reuniram em Lisboa no início do mês de Julho para debater o estado das alergias.

Tal como mencionou Elisa Pedro, as opiniões a este respeito são opostas: «A propósito da problemática da higiene quase que o congresso se tornou por instantes numa sala de tribunal, em que se sentaram a acusação e a defesa.» Quanto aos argumentos utilizados, tudo ficou equilibrado e a sentença, essa, ainda está por conhecer.

 

alergias

Alergias raras e banais

Variadas e múltiplas, as mais vulgares são as respiratórias, causadas por inalação provocada por certas partículas do ambiente, como o pólen e fungos; as alimentares, provocadas pela ingestão de leite de vaca e derivados, ovos, chocolate, marisco e crustáceos, carne de porco, frutas como a banana e morangos; as cutâneas, como os eczemas atópicos, urticária (as usuais babas) e angioedema (grandes inchaços); as medicamentosas, de que a penicilina é a mais conhecida; e as resultantes de picadas de insectos, como a abelha ou vespa, cujo choque pode levar à morte.

Actualmente, por força das muitas horas que se passam nos locais de emprego (que erradamente fazem uso de alcatifas e reposteiros, óptimos alojadores de ácaros), surgiram mais casos de alergias, a que se junta uma muito mais recente e de contornos menos precisos, ligada aos sistemas de ar condicionado, que nos perseguem constantemente e sem os quais já não conseguimos sobreviver com qualidade.

Os sintomas começam com uma ligeira irritação nos olhos e no nariz e vão desde os ardores na garganta, às dores de cabeça, fadiga e náuseas. Escusado será dizer que o remédio está no ar puro e basta abrir-se uma janela para tudo se desvanecer.

Como evitar alergias?

Evitar a rinite (inflamação da mucosa nasal que pode ser acompanhada de espirros contínuos, ardor e obstrução nasal e quando não tratada pode evoluir em asma), conjuntivite (inflamação do tecido conjuntivo dos olhos que dá origem a intensas picadas, sensação de ardor, incómodo perante excesso de luz e lacrimejar abundante), urticária (reacção alérgica da pele, que se caracteriza por erupções e prurido) e asma (dificuldade em respirar provocada por espasmo dos brônquios e, sem dúvida, a mais grave) nem sempre está ao nosso alcance.

A priori não existe qualquer tipo de cura definitiva e a única coisa que se pode fazer com alguma segurança é controlar (através de terapêutica inalatória, cada vez mais sofisticada) e prevenir (através de medidas higiénicas que, no caso do combate aos ácaros, é de extrema importância) naquilo que depender do próprio, basicamente ao nível comportamental. Uma substância que durante anos não provocou nenhuma reacção pode, de um momento para o outro, transformar-se num alergénico sem que se conheçam as causas desta viragem.

Contudo, convém tomar consciência de uma realidade que cada vez mais está a aumentar em todo o mundo, principalmente nas crianças e adultos jovens e nas mulheres (mais vulneráveis que o sexo oposto).

De entre as alergias expostas, é a asma a que assume dimensões mais gravosas. Uma em dez crianças sofre deste mal que, com alguns cuidados, pode ser minorado:
• É importante tomar a medicação, já que é o controlo mais eficaz e adequado para prevenir as crises;
• se sabe que os ácaros do pó da casa, o pólen da relva do jardim, os gatos e cães e os bolores a deixam sem respiração tente afastar-se destas substâncias;
• fazer desporto com moderação é aconselhável pelos médicos, sobretudo natação. Tem é que ter cuidado com as modalidades que se praticam em locais ou ambientes desfavoráveis;
• crie zonas de ventilação, abrindo janelas e deixando o ar circular, sobretudo na cozinha, durante o tempo em que está a cozinhar e na casa de banho, após os banhos;
• evite a utilização de tecidos sintéticos e areje os colchões e almofadas, onde habitualmente se alojam os ácaros, assim como as alcatifas, que preferencialmente deveriam ser abolidas e substituídas por outros materiais;
• se o seu filho gosta de peluches, tome precauções porque é normal que um simples brinquedo albergue milhões de ácaros e seus excrementos. Devem ser descontaminados pelo menos uma vez por semana e a forma mais simples de o fazer é colocá-lo no congelador durante 24 horas, lavá-lo e secá-lo.

Síndrome de Alergia Múltipla!

Ainda está muito pouco divulgada, contudo, em traços muito gerais, trata-se de uma hipersensibilidade das mulheres a inúmeros factores que integram o mundo em que vivem. Houve quem a considerasse Doença do Século XX mas ainda persiste no século XXI, levando a um total isolamento de tudo e todos.

Casas completamente isoladas, máscaras de respiração e bombas de oxigénio são instrumentos indispensáveis a quem sofre deste mal, cuja cura está associada ao total alheamento do mundo. Para quem padece destes problemas, tudo faz confusão e tudo causa náuseas, tonturas e fadiga, estando sempre a pensar na composição química dos alimentos, dos produtos de limpeza e do ar que respiram.

Felizmente que por toda a parte é um caso raríssimo, havendo mesmo quem desdramatize e o apelide de mito: «É quase um mito e está fortemente associado a factores de carácter psicológico», afirmou-nos Elisa Pedro. A hipersensibilidade existente entre nós é relativa a elementos específicos e isolados, como os pêlos e as penas dos animais, alguns alimentos ou bebidas, não assumindo proporções tão abrangentes como as anteriormente mencionadas.

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