Sonhos e Pesadelos: a nossa vida onírica

Sonhos e Pesadelos: a nossa vida onírica
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Há quem sonhe muito e quem diga que não sonha nada, há os que sonham mas nunca se lembram, os que têm sonhos sabendo que estão a sonhar e aqueles para quem os “reis” das noites são os pesadelos. Sabemos onde está o nosso corpo durante a noite, mas e a nossa mente? Por onde anda ela durante a nossa vida onírica?

Ouve um barulho e move-se um vulto na sua direção, corre a toda a velocidade para escapar ao seu inimigo desconhecido, mas acaba por chegar a um precipício e é então que, para continuar a sua fuga, começa a voar… Se já teve um sonho idêntico a este, saiba que, de acordo com o psicanalista Carl Jung, quem o persegue é provavelmente a sua sombra, ou seja, a soma de tudo o que menos gosta em si próprio e que, por outro lado, voar mostra a sua vontade de superar as dificuldades.

Sonhos e Pesadelos

Ao contrário de Freud, que defendia que os sonhos ocultam o que está no inconsciente e têm o seu propósito codificado, Jung afirmava que revelam muito mais do que ocultam e que, sendo uma expressão da nossa imaginação, usam uma linguagem direta capaz de nos mostrar nossa realidade interna.

Desengane-se quem julga que durante o sono, ao sonharmos, estamos num estado de inconsciência. Conforme nos explica Mário Simões, psiquiatra, professor universitário e co-fundador da Alubrat, “o sonho é um estado de consciência, embora modificado e fisiológico, em relação à consciência acordada do dia-a-dia.” De acordo com o psiquiatra o sonho pode ser mais ou menos consciente, no sentido em que podemos ter a noção nele e até modificá-lo, como acontece com os sonhos lúcidos.

 

“Mas porque é que eu sonhei isto?”

Recheados de medos, desejos, fragmentos do dia ou simplesmente coisas aparentemente sem sentido, a maior parte das vezes não conseguimos entender o que sonhamos ou por que o sonhamos.

Em média passamos por noite mais de duas horas a sonhar e, na verdade, a ciência não sabe exatamente como ou porquê. Alguns estudos sugerem que os sonhos – presentes durante o sonho REM – são a tentativa do córtex cerebral dar significado aos sinais que recebe. É a esta parte do cérebro que compete, durante o tempo que passamos acordados, interpretar e organizar toda a informação que nos chega, quando tentar fazer uma interpretação dos sinais que nos chegam de outras partes do cérebro durante o sono, o resultado é a criação de uma história a partir de fragmentos dispersos.

O psiquiatra Mário Simões afirma que os sonhos são uma grande central de tratamento do “lixo” do dia-a-dia: 90 por cento dos nossos sonhos são para tratar o que se passou no dia que acabou para no dia seguinte termos novas ideias. Conforme nos explica, este é um processamento que é efetuado automaticamente durante os sonhos. Se pensar bem, na verdade, os sonhos consistem sempre em “ações”, isto é, não sonhamos com cenas de repouso: são filmes, não fotografias. “As cenas de ação apresentam conteúdos diretos ou simbólicos das emoções e recordações do vivenciado durante o dia que não tenha sido integrado harmoniosamente. Por outro lado, os sonhos servem também para programar ou ‘ensaiar’ alguns comportamentos para o dia seguinte”, explica Mário Simões.

Sonhos e pesadelos recorrentes:

Os pesadelos podem ser desencadeados por coisas tão prosaicas como ter abusado do álcool, ter comido demasiado antes de ir para a cama ou estar com febre. Mas há também situações em que são provocados por situações mais complexas associadas, por exemplo, ao início ou paragem de medicação ou ao uso de drogas. Se não são uma situação esporádica e sim recorrentes é necessário despistar outros problemas que podem estar na sua origem, como a apneia do sono ou o stress pós-traumático.

O psicólogo Deirdre Barrett, da Universidade de Harvard, autor do livro The Committee of Sleep defende que os pesadelos nos ajudam a sobreviver e que a sua função é avisar-nos de potenciais perigos. De acordo com o autor, nos tempos primordiais, serviam para deixar os nossos antepassados pré-históricos alerta para a possibilidade de novos ataques de animais ou inimigos. Hoje em dia, uma coisa é certa: se tem pesadelos com frequência é porque seu subconsciente está “nervoso” com alguma coisa.

O especialista recomenda nestas situações duas coisas: por um lado, fazer uma análise da sua vida e das suas circunstâncias e tentar perceber o seu significado, por outro, para tentar acabar com o pesadelo, pode “ensaiar” o final que quer que o seu sonho tenha quando está acordado.

De acordo com o Mário Simões, os pesadelos representam sinais de alarme sobre questões a merecerem atenção da pessoa, sobretudo se se repetem. De resto, o psiquiatra defende que qualquer sonho repetido deve ser valorizados porque funciona como uma mensagem, uma espécie de aviso: “os sonhos repetidos são como um alarme que continua até ser desligado ou ‘reparado’. Frequentemente tratam de situações que durante a vida acordada ocupam grande parte da nossa mente e tempo, quase sempre angustiantes, para as quais a resposta parece não existir”, defende.

Mário Simões explica que depois destes sonhos, por norma, acorda-se muito angustiado, sem saber como acabam, isto é sem resposta, pelo que se “tenta” uma e outra vez obter a resposta pretendida. O psiquiatra explica ainda que “[a resposta] eventualmente, viria se o sonho se continuasse, em ambiente protegido, com a presença de um psicólogo, numa consulta, em estado de relaxamento.”

 

5 Curiosidades sobre os sonhos

– Estudos recentes demonstram que dormir profundamente depois de aprender uma coisa nova ajuda a manter a informação na sua memória.

– Também se sonha fora da fase REM, embora aqueles sejam mais vagos, imprecisos e abstratos e, naturalmente, também se “sonha acordado”.

– Reconhece-se que todos os mamíferos e algumas aves sonham.

– A privação de sonho induz uma baixa acentuada da imunidade que pode levar à morte, facilmente, na sequência de uma simples infeção.

– Durante o sono e sonho produz-se a hormona do crescimento – as crianças dormem e sonham mais. Também se produz um neurotransmissor ligado à memória – a acetilcolina – que cai bruscamente ao acordar, pelo que não se recorda muito do sonho.

– Os padrões de atividade cerebral encontrados durante o sonho com certos conteúdos imagéticos são semelhantes aos encontrados quando a pessoa é confrontada, acordada, com os mesmos conteúdos.

Fonte: Mário Simões, psiquiatra

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