Biblioterapia, o poder da leitura

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Imagine que o seu médico, em vez lhe pedir para aviar uma receita na farmácia, lhe prescreve uma ida à biblioteca… Pode soar estranho mas, por vezes, ler um livro pode ser a melhor terapia para o seu problema antes de recorrer aos medicamentos.

É verdade, há uma terapia que, além de não ser dispendiosa, não apresenta efeitos secundários. A biblioterapia ou terapia das emoções, é dela que lhe falamos, pretende ajudá-lo a superar as suas fragilidades emocionais, fazendo com que o seu tempo de leitura se torne num momento de autorreflexão. O objetivo é o de explorar a própria mente e acelerar o processo iniciado, por exemplo, numa consulta de psicoterapia.

Na sua essência a biblioterapia ajuda a tratar inúmeras situações, desde as mais simples, como falta de motivação ou ajuda na tomada de decisões, até situações mais complexas e graves, como depressão ou ansiedade. Esta terapia tem-se revelado tão eficaz que o serviço nacional de saúde do Reino Unido (NHS) já adotou oficialmente este método, apelidando-o de “Books on Prescription”. Usado na maioria das vezes para tratar casos de depressão, mas não em exclusivo, o método dispõe de um site onde podemos encontrar recomendações de livros para um sem-número de situações, nomeadamente fobias, raiva, ansiedade, stress, pânico, problemas de relacionamentos, falta de motivação e de autoestima, fadiga crónica, entre muitos outros. No entanto, em Portugal, apesar de ser habitual a recomendação de livros aos pacientes, a biblioterapia ainda é pouco aplicada como abordagem terapêutica.

o poder da leitura

Madalena Lobo, psicóloga clínica, explica que, em termos práticos, “a biblioterapia propõe-se tanto a gerir sintomas como as suas causas, por facilitar os momentos de maior consciência sobre nós mesmos, os chamados momentos AHAH”. O objetivo é dar relevância ao que possa “ajudar a descomplicar e a enriquecer a nossa visão sobre nós próprios e do mundo que nos rodeia – quer por quem trabalha a ajudar pessoas a melhorarem a sua qualidade de vida, quer por quem precisa de retomar equilíbrio e plenitude de vida”, reconhece a psicóloga, que acredita que a biblioterapia deve fazer parte do “arsenal terapêutico dos psicólogos”, como ela mesma descreve.

No entanto, não precisa de esperar pela prescrição do seu médico para recorrer a esta terapia. Como a biblioterapia não apresenta efeitos secundários, o paciente pode “automedicar-se” sem correr qualquer risco, ou seja, pode procurar livremente os livros que considerar serem úteis para si.

 

Como é aplicada?

Segundo Madalena Lobo, são várias as possibilidades de aplicação da biblioterapia na psicologia clínica: nas correntes psicodinâmicas, que enfatizam a interação entre as motivações do consciente e do inconsciente; na tradição cognitivo-comportamental, que tem como objetivo compreender, identificar e corrigir formas distorcidas de pensar e de gerir as emoções; de forma não estruturada (um processo mais espontâneo nascido das sessões); e, por fim, numa terapia menos usual, o aconselhamento filosófico, que pretende ajudar as pessoas a explorar os conceitos filosóficos que estão na base dos seus modelos de vida.

Quer isto dizer que na biblioterapia, tendo em conta as várias correntes de ação da psicologia clínica, podem ser usados livros de ficção que ajudam o paciente a confrontar-se com as suas tensões e conflitos internos, propiciando a identificação da sua vivência com a vida dos personagens do livro, ou publicações que ajudam a pessoa a perceber os mecanismos que estão na base do seu mal-estar e lhe permitem recuperar qualidade de vida, como manuais de autoajuda científica (aquilo a que se chama psicopedagogia).

“Felizmente, nos últimos anos tem-se assistido à proliferação de títulos na área científica que se destinam ao grande público, explicando conceitos da neurociência, sócio-comportamentais, biológicos, entre outros, de uma forma acessível e que se tornam extraordinariamente úteis, pois permitem aos pacientes compreenderem melhor o seu estado e gerar a mudança e libertação” , sublinha Madalena Lobo.

Requisitos a ter em conta

Como em qualquer terapia, a leitura terapêutica não é para todos, não por fazer adoecer ou trazer efeitos secundários, mas sim devido à personalidade e interesses de cada um. Como Madalena Lobo explica, “há pacientes que não recolhem qualquer prazer de leitura e outros que são leitores fervorosos. Depende dos temas que são apresentados e estão a ser trabalhados, uma vez que em algumas circunstâncias fará mais sentido a biblioterapia do que noutras”. Por exemplo, em situações de ansiedade e depressão, casos que surgem com mais frequência nos consultórios dos psicólogos, a biblioterapia mostra-se como uma terapia eficaz desde que se encaixe no estilo tanto do terapeuta como do paciente.

Neste sentido, o poder de uma boa leitura não deve ser subestimado. Poderá não levar a sério leituras como Harry Potter, ou abominar livros de autoajuda, mas a realidade é que com estes livros, e tantos outros, é possível ensinar e incutir valores importantes a quem os lê e analisa. Quer seja um livro de autoajuda quer uma boa história de ficção, um livro é sempre uma partilha, seja ela proveniente de uma experiência de vida ou uma partilha fictícia vinda do imaginário do autor.

Portanto, no momento em que se escolhe um livro existem alguns requisitos que devem ser cumpridos, tanto pelos profissionais como por nós próprios, uma vez que existem títulos que são mais adequados para determinadas situações. Clarisse Caldin, professora assistente na Universidade de Santa Catarina, no Brasil, identificou no estudo A leitura como função pedagógica: o literário na escola os elementos essenciais a ter presentes na biblioterapia: a catarse, capacidade de pacificação das emoções; o humor, manifestação da rebelião do ego contra as circunstâncias adversas, transformando o objeto de dor em objeto de prazer; a identificação, capacidade de assimilação de um aspeto ou atributo; a projeção, capacidade de transferência ao outro, de ideias, sentimentos, expectativas e desejos; e a introjeção, capacidade de passar para dentro de si qualidades do outro.

Para Madalena Lobo, “as histórias têm um poder metafórico que nos ajuda, de uma forma criativa e quase subconsciente, a encontrar respostas para temas nos quais podemos estar bloqueados ou ter um reportório de abordagem mais desgastado ou menos abrangente”. Por isso, da próxima vez que passar numa livraria, siga o conselho da psicóloga: “folheie os livros e procure nos resumos das histórias aquilo que lhe faz instintivamente sentido! É importante que as nossas escolhas sejam feitas com base no tema e na prosa, no que nos dá prazer ler e no que sentimos que, de alguma forma, nos faz sentido”.

Um livro para cada situação

Conheça as sugestões de leitura da psicóloga Madalena Lobo:

– Para que possamos compreender um pouco mais do cérebro antes de pensarmos “isto são coisas da minha cabeça e, portanto, é uma questão de força de vontade”: O cérebro que se transforma, de Norman Doidge.

– Para ajudar na tomada de decisões: Solving life’s problems, de Arthur Nezu, Christine Maguth Nezu e Thomas J. D’Zurilla.

– Para ajudar a aumentar os recursos pessoais e a capacidade de estar bem, em vez de apenas reduzirmos o que está mal: Hardwiring happiness, de Rick Hanson.

– Para quem procura mudar padrões comportamentais: A força do hábito, de Charles Duhigg.

– Num tom mais metafórico, para ajudar nas dificuldades da relação a dois: Amar de olhos abertos, de Jorge Bucay.

– Um livro explicativo sobre porque é que funcionamos como funcionamos, e que ajuda quando se faz trabalho com a abordagem EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento por meio dos Movimentos Oculares):  Getting past your past, de Francine Shapiro.

– Em situações de dor crónica: The divided Mind, de John E. Sarno, e Compreender a Dor, de David Butler e Lorimer Moseley.

– Para ganhar uma atitude diferente no local de trabalho:  Happiness at work: be resilient, motivated and successful, no matter what, de Srikumar Rao.

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