Personalidade, Relações e Teoria da Vinculação

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A Teoria da Vinculação é uma área da Psicologia que estuda as ligações emocionais que o ser humano estabelece com os outros ao longo da vida. Os percursores desta teoria foram Jonh Bowbly  e Mary Ainsworth e demonstraram de forma independente a importância de, desde cedo, ser estabelecida uma relação de privilégio entre o bebé e uma figura de vinculação prestadora de cuidados e segurança.

A ideia é que ao longo de toda a nossa vida estabelecemos ligações familiares, românticas e de amizade, mas a forma como nos ligamos aos outros pode estar fortemente condicionada pelo tipo de ligação que estabelecemos com os nossos pais (ou principal figura cuidadora) durante a infância, o que por sua vez, irá influenciar as nossas estratégias para nos relacionamos com os outros ao longo da vida.

Quando a maioria das nossas relações com os outros são positivas e saudáveis, isso traz-nos um maior bem-estar, felicidade, satisfação com a vida, produtividade e estabilidade. Mas nem sempre é isto o que acontece, o que pode dever-se a padrões de vinculação que já vêm desde as nossas relações mais precoces.

Será que as tuas relações com os outros estão a ser afectadas por padrões de vinculação desajustados? Hmn… Se verificas que na tua vida há um padrão de relações falhadas, então é bem provável que sim! As boas notícias é que é possível alterar esse padrão de vinculação, embora seja uma tarefa difícil e que leva o seu tempo, mas o primeiro passo será certamente sermos capazes de identificar qual é o nosso padrão e que estratégias utilizamos nas nossas relações!

Tipos de Vinculação:

Existem 3 principais categorias de vinculação que as pessoas adoptam, sendo estas: Seguro, Inseguro-Evitante e Ansioso.

Seguro-autónomo:

As pessoas com um estilo de vinculação seguro, são pessoas que, à partida, na sua infância tiveram as suas necessidades básicas assegurados bem como uns pais (ou outras figuras cuidadoras) afectuosos, disponíveis e acessíveis. Estas pessoas são independentes e confiantes. Sabem lidar de forma mais saudável com as relações inter-pessoais, sejam familiares, de amizade ou românticas, pois priorizam as que são realmente significativas e estabelecem limites claros nas diferentes relações. Além disso têm abertura e maturidade emocional para lidar com os problemas e resolvê-los de forma assertiva. Confiam e gostam de se dar a conhecer aos que lhes são mais próximos e, por isso, são também pessoas merecedoras de confiança. Estas pessoas fazem representações positivas sobre si próprias e sobre os outros.

Nas relações amorosas: Valorizam a intimidade na relação e sentem interdependência e conforto na companhia do outro. Expressam aquilo que sentem, o que gostam e o que os incomoda sem ferir o companheiro. Confiam no outro e procuram-no em situações de necessidade, mas também ouvem e apoiam as necessidades do companheiro funcionando como uma base segura para este. As pessoas com vinculação segura têm facilidade em aceitar o outro, não obstante os seus defeitos. Revelam menos comportamentos hostis e uma maior capacidade de negociação e resolução de conflitos.

Os casais em que ambos têm um estilo de vinculação seguro experimentam grande satisfação e prazer no decurso da relação, percebem o outro como disponível e responsivo e por isso sentem-se mais seguros para “explorar” outras áreas da sua vida, sentindo-se incentivados para realizar projectos pessoais e objectivos de vida. Estas relações são duradouras e satisfatórias, caracterizando-se por um elevado investimento, confiança e amizade. Manifestam também maior abertura para uma variedade de actividades sexuais e descoberta mútua de novas formas de prazer.

No trabalho: Apresentam elevados níveis de satisfação com a actividade profissional, considerando-a desafiante e mostram-se satisfeitos com as possibilidades de promoções e progressão na carreira. Estas pessoas, valorizam as relações inter-pessoais no trabalho e consideram que são valorizadas e apreciados pelos seus colegas e seus superiores.

Inseguro-Evitante:

As pessoas que se enquadram na categoria de vinculação insegura-evitante, tiveram uma figura cuidadora pouco sensível e  que respondia de forma imprevisível às suas necessidades e, por isso, enquanto criança é provável que se tenha sentido ignorada e rejeitada quando mais precisava da sua figura cuidadora. As pessoas com uma vinculação insegura-evitante, caracterizam-se como sendo pessoas fortes e independentes e desvalorizam ou atribuem pouca importância à influência que as relações tiveram ao longo da sua vida. Elas não se assumem como vulneráveis mas vêm o mundo como um local inseguro e imprevisível e por isso são pessoas desconfiadas e têm expectativas desfavoráveis em relação aos outros. Estas pessoas quando falam de situações problemáticas que aconteceram na sua vida, falam como se isso não as tivesse afectado muito, desvalorizando a situação. Elas também não se sentem à vontade com a intimidade. São considerados pelos amigos como pessoas hostis e ansiosas.

Nas relações amorosas: As pessoas com uma vinculação insegura-evitante tendem a evitar o envolvimento e a intimidade na relação, assim como, de depender do outro e a ele recorrer em situações de necessidade. São menos capazes de se apaixonarem, mas quando isso acontece, o mais provável é se constituir num jogo. Preferem os encontros sexuais “one night stand” e o sexo com poucas carícias e poucos preliminares afectuosos.

Têm dúvidas de que a relação lhes traga amor ou algo de positivo, evidenciando a assim a crença de que é auto-suficiente e de que não necessita da aproximação do outro. Em situações de stress, afasta-se do companheiro não pedindo apoio de modo claro mas sim de forma indireta. As relações em que pelo menos um tem uma vinculação insegura evitante, são marcadas por um alto nível de rupturas e um baixo nível de intimidade.

No trabalho: Adoptam uma postura de ocupação compulsiva que parece ser uma forma de se distraírem das suas próprias necessidades de vinculação e assim evitar interações desfavoráveis com os outros. Exprimem insatisfação com o seu trabalho.

Emaranhado-preocupado

A relação com a principal figura cuidadora foi desajustada e imprevisível, pois ora recebiam muito afeto e cuidado, ora recebiam pouco. Por isso, têm dificuldade em desenvolverem a sua identidade pessoal e em serem pessoas autónomas. Quando falam de si são auto-depreciativas e parecem estar sempre carregadas de culpa. Têm uma grande necessidade de aprovação dos outros, apresentam-se como pessoas vulneráveis e são muito queixosas. Quando experimentam perda ou separação, esta vem acompanhado de uma elevada intensidade emocional e auto-recriminação. As relações com estas pessoas tendem a ser complicadas porque elas têm dificuldade em se verem como uma pessoa separada do outro e precisam de constante atenção. Estas pessoas percebem-se como menos competentes socialmente, experienciando níveis superiores de stress e ansiedade.

Nas relações amorosas: Estas pessoas têm medo de serem abandonadas pelos seus parceiros e por isso revelam maiores níveis de ciúme, desconfiança e uma maior vulnerabilidade à solidão. Ficam chateadas ao perceberem que o outro não depende tanto delas como o contrário.

Por isso, a interacção em que um dos elementos tem um estilo de vinculação preocupado, é caracterizada por elevada manifestação de afecto negativo não satisfazendo o desejo de proximidade. Preocupam-se muito com a sua atractividade sexual e aceitação associado ao medo de rejeição e de abandono.

Têm preferência pelos aspectos afectivos da sexualidade, como por exemplo, tocar, agarrar e fazer meiguices, do que propriamente pelos aspectos genitais.

No trabalho: Estas são as pessoas que manifestam níveis mais elevados de insatisfação laboral assim como nas relações com os colegas, tendendo a considerarem-se como pouco apreciados e/ou não reconhecidos. São motivadas pela necessidade de serem aprovados pelos pares e chefias nas funções e tarefas que executam, manifestando medo de falhar.

E então? Conseguiste identificar-te com algum destes 3 tipos de vinculação?

Cerca de metade dos casais que procuram ajuda na psicoterapia são do estilo de vinculação seguro-autónomo, mas apesar de as pessoas terem este tipo de vinculação podem também adotar algumas defesas e/ou estratégias na relação típicas da vinculação inseguro-evitante ou de emaranhado-preocupado.

Os casais com uma vinculação seguro-autónomo também têm discussões (em vez de as evitar), mas a diferença é que têm uma maior capacidade para resolver conflitos, são mais flexíveis e ouvem o outro.

Bibliografia:

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