Suicídio na Adolescência: conhecer os sinais de alerta e saber como agir

Suicídio na Adolescência: conhecer os sinais de alerta e saber como agir
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A prevenção do suicídio não é algo que esteja reservado a médicos e outros profissionais de saúde, deve ser uma preocupação partilhada por todos nós, estando atentos a quem temos ao nosso lado, às emoções que deixa transparecer ou ao sofrimento que expressa. É essencial conhecermos os sinais de alerta e sabermos como agir perante uma situação concreta.

As preocupações e muitas solicitações que marcam o ritmo de vida acelerado dos nossos dias podem levar a que as pessoas deixem de reparar verdadeiramente umas nas outras. Mesmo quando vivem debaixo do mesmo teto.

“Há famílias que por muitas razões têm vidas difíceis, horários complicados e nas quais se instala um padrão de comunicação de má qualidade em casa, e isso tudo faz com que haja muitas dificuldade em avaliar a gravidade de uma situação”, reflete Helena Fonseca, pediatra e especialista em medicina do Adolescente, responsável pela Consulta do Adolescente do Hospital de Santa Maria.

De acordo com a especialista, as famílias devem estar alerta para quebras do rendimento escolar, modificação no padrão de relacionamento e quebras muito grandes ao nível dos interesses.

Mas atenção que muitas vezes o adolescente mostra o seu sofrimento não através da apatia, mas da ação. “A depressão na adolescência é muitas vezes uma depressão ‘agida’, ou seja, não é uma depressão quieta e ‘de cabeça baixa’ como no adulto, temos adolescentes muito agressivos e turbulentos, por exemplo com queixas de mau comportamento na escola, que estão profundamente deprimidos”, refere Helena Fonseca.

Muitos dos adolescentes que cometem suicídio, ou têm comportamentos auto-lesivo, emitem antes sinais de aviso aos seus ente queridos e conhecidos. “A maioria das pessoas que se magoa de propósito, tenta comunicar o seu mal-estar e procura alguém que o perceba. No entanto, a maior parte destes jovens não consegue comunicar ou expressar-se com eficácia, o que leva a que acabem por se sentir sós e abandonados, pelo que é necessário estar muito atento para compreender os sinais”, explica o psiquiatra Diogo Guerreiro.

Um dos episódios que chocou o mundo em 2003, o caso de Ryan Halligan é revelador disso mesmo. O adolescente americano de 13 anos cometeu suicídio e nos últimos tempos de vida, começou a dar sinais muito explícitos das suas intenções. Quando ofendido por uma colega de escola respondeu-lhe “são raparigas como tu que me dão vontade de me suicidar” e, mais tarde, começou a falar abertamente com amigo virtual sobre questões relacionadas com a morte e o suicídio, afirmando que estava a pensar em suicidar-se.

Apesar de Ryan, junto do círculo de amigos e conhecidos, dar sinais muito directos das suas intenções, em família nunca o fez, só mais tarde os seus pais reconheceram que mostrava sinais de mal-estar. Por um lado, mostrava uma extrema preocupação com os resultados escolares – que iam ser maus – e sobre como isso ia desapontar os pais, por outro, uma noite perguntou diretamente ao pai se ele já tinha alguma vez pensado em suicídio. Sinais claros de alerta que não foram compreendidos.

Além de ser necessário manter uma comunicação aberta com o adolescente, exprimir a preocupação, apoio e amor, se necessário deve-se perguntar abertamente ao adolescente se está a pensar em fazer mal a si próprio.

Ver, ouvir e falar são palavras-chave, sobretudo se se sente que o adolescente está deprimido ou distante. E é um preconceito errado considerar que quem fala sobre o suicídio não está realmente a ponderar fazê-lo. Achar que, se o adolescente fala em fazer mal a si próprio, está apenas a tentar chamar a atenção, ignorar esse apelo ou desvalorizá-lo só aumenta as probabilidades de que tente fazer mal a si próprio. Assim, aconteceu com Ryan Halligan e com muitos outros, pelo que é crítico que todos conheçamos os sinais de alarme de forma a podermos tentar ajudar a tempo.

De acordo com o Núcleo de Estudos do Suicídio estes são os principais sinais de alarme a ter em conta:

 

Depressão, melancolia, grande tristeza, desesperança e pessimismo;
Insucesso escolar (por parte de quem era antes aluno interessado);
– Apatia pouco habitual, letargia, falta de apetite;
– Insónia persistente, ansiedade ou angústia permanente;
– Abuso de álcool, droga ou fármacos;
– Grande impulsividade e agressividade;
– Dificuldades de relacionamento e integração na família ou no grupo;
– Afastamento ou isolamento social;
– Dizer adeus, como se não o(a) voltássemos a ver;
– Oferecer objectos ou bens pessoais valiosos.

O que fazer perante uma conversa ou ameaça de suicídio?

Existem nesta área muitas ideias preconcebidas que prejudicam a abordagem ao potencial suicida. De acordo com a Nacional Alliance of Mental Health, outro dos erros mais comuns é pensar que, se alguém está a pensar em suicídio, falar nesse assunto só vai piorar a situação ou “dar-lhes ideias”. Na verdade, acontece o oposto, falar e discutir o assunto sem confronto e sem demonstrar desaprovação é uma das melhores ajudas que se pode dar.

Por outro lado, uma ameaça de suicídio deve ser sempre levada a sério. “Se um jovem diz que vai acabar com a sua vida, algo de errado se está a passar, alguma coisa quer comunicar. Poderá querer comunicar que está doente (depressão ou ansiedade), que não sabe como lidar com o stress, que está zangado com alguém ou até que necessita de mais atenção!”, explica o psiquiatra Diogo Guerreiro. É um sinal de alarme muito forte e é importante conversar frontalmente com o adolescente, sendo que se existirem dúvidas acerca do que se passa, se deve recorrer a um técnico de saúde para avaliação.

Saber agir

Caso suspeite que alguém pode estar a equacionar o suicídio como solução, não deixe a pessoa sozinha e procure de imediato ajuda profissional. Na iminência de um ato suicida, tenha presentes as seguintes regras:
1. Leve a pessoa a sério.
2. Mantenha-se calmo e escute.
3. Não sub-reaja.
4. Envolva outras pessoas.
5. Chame o 112 se necessário.
6. Contacte o médico dessa pessoa.
7. Revele interesse.
8. Mantenha o contacto visual
9. Se apropriado, utilize a linguagem corporal, por exemplo, movimentando-se para perto da pessoa ou segurando a sua mão.
10. Faça perguntas directas.
11. Tente saber se a pessoa possui planos específicos e qual o método de suicídio que está a ser considerado.
12. Não prometa confidencialidade. Poderá ter necessidade de falar com amigos, familiares ou técnicos de saúde.
13. Reconheça os sentimentos da pessoa.
14. Seja empático e não crítico.
15. Ofereça confiança.
16. Realce o facto de o suicídio constituir uma solução permanente para um problema temporário, lembrando a pessoa de que existe ajuda e que as coisas irão melhorar.

FONTE: Adaptado de Sociedade Portuguesa de Suicidologia

Nunca assuma que, se a pessoa está determinada a fazê-lo, não pode ser travada. Esta é uma crença muito comum, mas na verdade não poderia estar mais errada. Na maior parte dos casos, mesmo pessoas com depressão severa têm sentimentos contraditórios em relação à sua morte e até ao último momento oscilam entre a vontade de viver e a vontade de morrer. Aliás, a maior parte dos suicidas não deseja morrer, deseja pôr fim ao sofrimento que sente, o que é uma coisa muito diferente.

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Ashley Billasano: um caso extremo de um pedido de ajuda ignorado

Em Novembro de 2011, Ashley Billasano, de 18 anos, falou sobre os abusos sexuais de que alegadamente foi vítima e das acções policiais e judiciais em torno do caso, a seu ver ineficazes, através da rede social Twitter.

Nesse dia faltou à escola e, durante 6 horas, enviou 144 mensagens a relatar o seu sofrimento, o seu desespero e a pedir ajuda. Relatou, em tempo real, uma primeira tentativa de suicídio. Pouco depois anunciou uma segunda tentativa e os seus tweets pararam.

A polícia alega ter investigado a queixa de abusos sem que tenham sido encontradas provas suficientes para avançar com o processo. Mas a opinião pública americana ficou concentrada numa questão bem mais pertinente: como foi possível que Ashley se tenha suicidado depois de 6 horas a enviar mensagens sem que, em momento algum, nenhum dos seus 500 seguidores no twitter tenha tentado fazer alguma coisa para a impedir ou tenha chamado a polícia?

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